Quando a vida conversa conosco…

 

Acreditem, por mais piegas, brega ou onírico que esse título possa parecer, ele é bem explícito, talvez (e bem provavelmente) ‘a vida falando conosco” seja fruto de um fortíssimo efeito placebo ‘’nós enxergamos formas nas nuvens apenas porque queremos enxergar’’, da mesma forma eu posso (e devo) estar enxergando apenas aquilo que eu quero.

 

 

Pois bem, ontem eu tava com minha mãe esperando algumas pessoas em um restaurante de comida mexicana (meu Deus, eu amo Chilli) e entre uma conversa e outra eu comentei por alto uma coisa que haviam me dito pela terceira vez, que eu não me encaixo aqui… Que eu não me encaixo em um escritório, engravatado, contido, etc… Minha mãe acha que isso é egocentrismo… e ela tá certa.

 

Mas não fui eu quem disse… Enfim, conversamos muito sobre planos, sobre futuro, faculdade, plano de carreira, etc… E aquilo me deixou com muitas dúvidas, levantou muitas dúvidas que embora eu conhecesse, nunca dei tanta atenção. Bem, meus planos consist(em ou iam) em terminar dois semestres no curso de Teatro Musical ETMB (longa história, no final do semestre eu dedico um texto pra isso), me mudar pra casa do meu avô no Rio de Janeiro, começar uma faculdade de psicologia e conciliar isso com cursos de teatro musical, tentar engajar em algum trabalho pequeno, grande ou médio nesse ramo ( por ramo entenda também a música) e tentar crescer a partir dai, não é um plano fácil e nem de longe inteligente, na verdade é bem ingênuo e estúpido, mas a segurança de morar com meu avô, de estar estudando (psicologia = curso convencional) e de ser relativamente jovem me permitira o risco e o mais importante, isso é o que eu quero. Mas nenhuma certeza, por mais firme que seja, é livre de dúvidas e nem essa seria… Inúmeras vezes eu já pensei que…

 

1 – Seria mais fácil seguir a cartilha que querem que eu siga?

2 – Seria mais fácil ficar aqui e sei lá estudar para um concurso (Brasília é a cidade dos concursos)?

3 – Seria mais fácil eu tentar algo nesse meio por aqui mesmo Brasília sendo relativamente fraca nesse quesito?

4 – Eu vou me arrepender mais por não tentar ou por talvez fracassar?

 

Seria exagero dizer que eu perdi o sono com essas perguntas, mas elas ficaram martelando na minha cabeça desde ontem e assim como eu já descrevi no blog como a paixão nos dá força e nos enche de certeza, seria tolice negar que em alguns dias a dúvida assombra. E hoje eu acordei assombrado por essa dúvida e sem conseguir responder com toda a certeza, como vocês já podem ter percebido eu estava procurando respostas e talvez eu queira ter as enxergado como eu enxerguei.

 

Todas as quintas eu tenho aula de canto na Claude Debussy, o professor é um cara com quem eu tive contato na metade do ano passado quando fui aceito na escola (e desisti por um motivo que será esclarecido ao longo do texto), naquela época em um primeiro momento eu não fui bem com a cara dele, ele é do tipo extremamente sincero, crítico, cínico, competente e egocêntrico (sim, eu sei… Eu sei… Eu), por mais que eu tenha uma preferência enorme por professores rígidos, eu vinha de um convívio com a professora mais doce do mundo (praticamente uma princesa Disney)  a Nívea e hoje eu vejo que ela passava muito a mão na minha cabeça e isso foi ótimo, porque ela me deu confiança para dar vários passos e uma base musical criativa muito boa, mas ela tem a filosofia de que cada um tem um jeito único e especial de cantar, o Augusto é um professor voltado para musicais, técnica, firmeza, técnica, firmeza e o choque entre filosofias foi claro. Enfim, esse semestre mais uma vez eu fui escolhido para ter aulas com ele e fui com o coração aberto, mas nunca tinha tido grande empatia com ele, até hoje… A aula costuma ter  50 minutos, começamos a conversar por uma besteira (ele me perguntou se eu estudava ou trabalhava e o assunto ganhou proporções enormes) e ficamos conversando por 40 minutos (depois ele alongou a aula por mais 40 de exercícios), conversamos sobre política, religião, carreira, cursos, Eva Péron, etc… Mas o mais importante foi… Ele me disse que todos os dias da vida dele ele pensa em entrar na vida de concurseiro, porque querendo ou não a vida no serviço público dá uma enorme estabilidade e em Brasília ser funcionário público é status e segurança, ele me disse que na família dele ‘’trabalhar’’ é o que mais importa, seja onde for e deu a entender que eles gostariam que ele seguisse essa cartilha tão comum em Brasília, mas ele (ao menos ainda) não seguiu, é formado em música, dá aulas e embora o sonho dele seja trabalhar com barcos na Dinamarca (sério) ele consegue fazer muitas coisas, como viajar pra NY, etc… Daí eu tirei que ele não seguiu a cartilha, ele trabalha com algo que ele gosta e embora as vezes ache que seria melhor seguir, esse achar não foi forte o bastante para mudar o caminho dele e mais importante ele me disse que com o tempo aceitaram que esse era o caminho dele e até o incentivaram. Talvez fosse mais fácil seguir o predeterminado, mais fácil e mais seguro… Mas o mais fácil nem sempre nos basta e mais importante… Seria realmente mais fácil?!

Seguindo a Lei de Murphy, no dia em que eu saio 30 minutos atrasado da aula minha mãe resolve me buscar e estava lá embaixo me esperando e atrasada para um compromisso, ela me deixou na estação Galeria (estação que eu NUNCA pego), a estação àquela hora estava meio deserta e assustadora, no completo silencio um cara me abordou e eu dei atenção (sério, eu sou tipo a pessoa mais fácil de ser assaltada, porque eu paro e dou atenção e ouvidos até para o mais bêbado dos mendigos), ele me explicou que tava sem dinheiro para almoçar no dia seguinte, tinha sido demitido ou algo assim, o chefe não tinha pago dinheiro, mas ele tinha dinheiro no cartão do metro, ele perguntou se eu não poderia dar o dinheiro da passagem pra ele e ele pagava minha passagem com o cartão (eu sei que pode parecer perigoso, mas eu confio muito no meu instinto e aquele cara não parecia perigoso), eu concordei, dei o dinheiro e fomos caminhando (sim, isso foi a noite e fora do metro… eu sei, eu sei…), ele me passou para dentro e entrou também, não tinha como não conversar e fomos conversando, falei da famosa receita de miojo na redação do Enem e ele me disse que havia perdido uma vaga em concurso por uma redação, então entramos no metrô e continuamos conversando, ele me disse que tava desde as oito da manhã estudando para o concurso do STJ, ele tava vestido de maneira muuuuito humilde, a carteira dele tava em frangalhos e carregava uma sacola com escova de dente e outras coisas necessárias para passar o dia estudando, eu cometi a gafe de falar que concurso era mira pra quem só gostava de dinheiro (sim, eu generalizei, mas convenhamos… Eu não faria concurso por outro motivo, mas isso sou eu) ele me olhou com uma cara muita feia e disse que nem sempre, eu entendi que ele não tava se matando daquela forma apenas por dinheiro, não sei porque, talvez seja pelo status de ser alguém, provavelmente pela estabilidade e eu que sempre achei que abandonar meus sonhos e seguir a cartilha era fácil levei um choque em ver que… Lutar, se sacrificar, tentar ser alguém, é um sonho que não se aplica apenas ao meio criativo ou artístico, de maneiras diferentes é o que todo mundo quer… E olhando pra ele, muito inteligente e muito surrado pela vida, eu quis acreditar nele, pra mim aquele cara vai passar em um concurso e vai ser um grande funcionário, não só um cara que mama nas tetas do governo, porque? Porque eu vi a paixão e o sacrifício dele para isso… Bem, ele só falava de concursos e isso tava meio chato, eu não queria passar a viagem toda ouvindo sobre o judiciário e não tava com pressa pra chegar em casa, desci na estação 112 sul pra esperar o próximo metrô.

 

Ia colocar meu fone de ouvido… Mas antes que eu pudesse…

 

Uma senhora perguntou se o metrô pra Ceilândia era daquele lado, eu disse que sim, mas que o próximo seria o samambaia, ela disse que na verdade não havia problema, ela só queria saber o sentido da linha, ela desceria em Arniqueiras… Arniqueiras é a minha estação, então… NÃO TINHA COMO NÃO CONVERSAMOS… E não… Eu não sou de puxar assunto com estranhos e não sou de conversas aleatórias, mas… As coisas acontecem… Fomos conversando e ela me contou a vida dela toda e talz, o nome dela era Edith, Edith Equi, ela me disse que o filho dela (Alexandre) tinha uma banda e ela era meio que a agente da banda, ela me disse que ele tocava teclado, violão e voz e inclusive me chamou pra assisti-lo nesse sábado na 410 sul, enfim… Falamos sobre isso, sobre o ego dos músicos, as drogas, ela me contou sobre o casamento dela e talz… E me disse que… Ela havia oferecido para o filho um trato, vender o apartamento dela aqui e se mudar com ele para o Rio de Janeiro, porque ela viu que ele estava estagnado aqui e lá ele teria mais chances, lá ele teria chances reais… Porque aqui ela batalhava muito por ele, mas não via nenhum resultado significativo, o mercado em si é pequeno… Sim, ela disse que o filho dela era meio bobo de não querer ir pro Rio de Janeiro criar uma carreira musical lá… Que aqui ele não conseguiria alcançar os sonhos dele. Nós conversamos, na saída ela me deu um abraço, perguntou meu nome, disse o dela e falou que gostou muito de me conhecer (e quem não gosta, né?).

 

Fui lanchar e parei pra pensar no meu dia, parei pra pensar que foi um dia diferente dos dias comuns, as pessoas, as conversas a aula longa e lembrei de mais uma pessoa. Um cara chamado Lucas, da Claude Debussy, nós nunca nem nos cumprimentamos, mas esperando na porta das salas NÃO TINHA COMO NÃO CONVERSARMOS.

 

Conversamos superficialmente sobre música durante uns 5 minutos no máximo, só deu tempo de eu contar que tinha sido aceito na escola no último semestre de 2012, mas que tinha aberto mão da vaga e gasto o dinheiro com outra coisa, embora meu plano original fosse fazer o curso, algo surgiu do nada (um show da Lady Gaga) e como eu já tinha passado meio que me convenci de que seria fácil fazer de novo, talvez até fosse se eu não tivesse perdido a data.

 

Ele riu e disse “Pelo menos valeu a pena!”, e eu sorri e concordei, realmente tinha válido.

 

Porque sim, no meio do ano passado eu joguei o curso pro alto e viajei para São Paulo (como já contado aqui), foi estúpido… Eu com toda certeza não entrei no camarim e não apertei a mão da Lady Gaga, não curti a noite de Sampa, não foi a viagem dos meus sonhos, mas me apaixonei pela cidade, reforcei minha paixão por teatro musical, tomei algumas decisões que me levaram por um caminho que hoje me permite escrever esse texto e no final, sim… Valeu muito a pena, nós sempre queremos ter controle sobre a nossa jornada… Mas vendo essa pequena viagem um lapso de sabedoria me diz que, as melhores coisas não são planejadas, mesmo que aconteçam dentro dos nossos planos…

E no final do dia de hoje, pessoas que eu mal conhecia ou não conhecia de forma alguma abriram um pouco de suas vidas e me ajudaram a quebrar algumas dúvidas, a ver as coisas de outra forma, a entender que nada é fácil, talvez nada seja tão difícil que nem sempre é possível ser tão corajoso, mas no fim o que realmente nos move pesa e é mais forte e se nada for como planejamos, ainda pode ser bom e se for como planejamos nem sempre vai ser como esperamos… De certa forma a vida falou comigo por meio dessas pessoas, as dúvidas que eu tinha receberam respostas, ligeiramente ambíguas, mas sinceras e nada ficou mais claro do que era antes, eu não tenho nenhuma decisão tomada e as dúvidas não evaporaram… Mas as dúvidas se calaram por enquanto, eu não sei o que eu vou fazer e nem o que devo… Mas eu sei o que eu quero fazer e quero ser forte o bastante para isso…  O que nesse caso apenas significa, ser um pássaro e encontrar o meu norte e na hora certa migrar para lá (ou para cá).

 

É estranho um texto sem piadinhas ou gifs… Ainda mais um tão longo, espero que não tenha ficado cansativo, obrigado pela atenção…

 

xoxo   Gossip Girl 

Henry

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